Cinema

Premiado, filme sobre Éder Jofre estreia nesta semana e explora embates no ringue e em família

Longa “10 Segundos Para Vencer“, estrelado por Daniel de Oliveira e Osmar Prado e co-produzido pela Globo Filmes, conquistou duas estatuetas no Festival de Gramado.

Por: Guilherme Roseguini e Paulo Roberto Conde — São Paulo

É noite de segunda-feira, 10 de setembro, e um senhor passa pelos presentes até se acomodar na poltrona que lhe foi reservada para assistir à pré-estreia. Acomoda-se ao lado de sua filha, Andréa, e prepara-se para acompanhar o filme de sua vida. Nas quase duas horas de exibição, transbordam sentimentos e memórias que culminam em um choro compulsivo.

Éder Jofre revê na telona boa parte do que viveu ao longo de seus 82 anos. A infância sofrida em uma família pobre, o sonho de ser desenhista, a doença que acometeceu seu irmão (Dogalberto, o Doga) e forçou seus pais a venderem tudo e a tortuosa entrada para o mundo do boxe, que se tornou a tábua de salvação da casa. E que o transformou em um dos maiores lutadores de todos os tempos – pertence ao Hall da Fama do boxe desde 1992.

É esse o enredo que serve de base para “10 Segundos Para Vencer”, filme com co-produção da Globo Filmes que estreia nesta próxima quinta-feira (27) nas salas de exibição de todo o país e que conta a trajetória de Jofre, um dos maiores atletas da história do esporte nacional. A película ganhou dois prêmios no Festival de Gramado: de melhor ator para Osmar Prado e melhor ator coadjuvante para Ricardo Gelli.

A pré-estreia em setembro contou com uma rara aparição pública do ex-lutador, que trava uma luta com a encefalopatia traumática crônica, mal diagnosticado em 2015 e que lhe causa perda de memória e limitação de funções motoras.

A obra gravita em torno da relação entre Jofre (interpretado por Daniel de Oliveira) e seu pai, Kid Jofre (Osmar Prado), e os embates que travam entre quais os limite entre a dedicação ao esporte, família e pretensões pessoais. Argentino de nascimento e ex-boxeador, José Aristides “Kid” Jofre veio para o Brasil para cuidar da academia do irmão e estabeleceu-se em São Paulo. Casou-se com Angelina e teve quatro filhos, entre os quais Éder (os outros eram Lucrécia, Dogalberto e Mauro).

O clã viveu a infância de Éder na região do Peruche, bairro da capital paulista, onde Kid passou a tocar sua academia atrás de um pugilista bom o suficiente para tirá-los da miséria. Sua principal aposta, Antonio Zumbano, o Zumbanão (Ricardo Gelli), parente de Angelina, era um talento com a pegada forte e comprometimento nulo, que aos poucos desperdiça todas as chances de alcançar o estrelato profissional.

Diante desse cenário é que Éder Jofre começa a constituir-se boxeador. Desenhista na infância e adolescência, ele começa a lutar por influência do pai e para ajudar financeiramente a família. Dono de um compromisso inversamente proporcional ao de Zumbanão, encara treinos duríssimos – a ponto de ser levado pelo pai a um presídio para brigar com presos -, sacrifica-se para perder peso antes das lutas e não abre mão de tentar ser o melhor, mesmo que para isso tenha desavenças com sua mulher, Cida. Logo, começa a acumular vitórias, destaque nacional e internacional e se coloca em posição de disputar cinturões pelas principais entidades da modalidade em todo o mundo.

O resto é história. Nos anos seguintes, Éder tornou-se campeão mundial em duas categorias distintas (galo e penas), e isso depois de abandonar e voltar aos ringues. Somou 72 vitórias em 78 combates, dos quais 50 por nocaute, e sofreu apenas duas derrotas, ambas para o japonês Fighting Harada, por pontos. Depois de encerrar a passagem pelos ringues, nos anos 1970, também perseguiu carreira política e foi vereador.

Para compor o personagem, Daniel de Oliveira chegou a passar uma semana com Éder em São Paulo. Ambos treinaram juntos e fizeram um tour por academias para que o ator entendesse o que move um boxeador.

– Existe um esquecimento dos ídolos no país, isso é recorrente. Nós estamos em um país em que se queima museu. Estamos em um país sofrido mesmo. Então, a gente tem que trazer esses heróis, como o Éder, para a luz novamente. Ele foi bicampeão mundial de boxe, em duas categorias diferentes. É uma história dramática – afirmou Oliveira, que fez treinos específicos durante um ano para se preparar.

Uma das preocupações do diretor José Alvarenga Jr. foi dar veracidade às cenas de luta. O elenco treinou com boxeadores e ex-boxeadores profissionais e lutou com eles nas cenas. Árbitros profissionais também foram chamados para mediar as reproduções dos combates. A parte de ação foi gravada em uma semana, e houve efeitos especiais para criações de áudio e público em arenas.

– Não se pode fazer um filme sobre um campeão de boxe e não justificar por que ele é um campeão de boxe. Você só vai entender o Éder Jofre se olhar uma luta e ver que esse cara luta muito. Essa era a nossa meta inicial – disse.

Outra dificuldade foi compor o personagem de Kid, que centraliza as ações do filme com o filho. Osmar Prado contou que usou da própria experiência com seu pai para recriar o argentino.

– Você tem uma farta documentação de lutas do Éder e tudo. Mas e quem seria o Kid Jofre? Então, o meu ponto de partida foi o que a minha memória emotiva dava desta história. Já que quando o Éder se sagrou campeão eu tinha 13 anos, acompanhávamos toda a trajetória – afirmou Prado.

No fim, “10 Segundos Para Vencer” faz uma justa homenagem ao maior campeão do boxe do país, o que não é comum na avaliação de Ricardo Gelli.

– A mim sempre pareceu um grande desperdício não haver mais filmes de esporte no Brasil. Não existe um grande filme brasileiro sobre o Ayrton Senna, sobre futebol, sobre esse vôlei multicampeão, sobre grandes atletas, como o João do Pulo. Tantas figuras representativas que dariam filmes lindíssimos. Espero que isso se torne mais recorrente no cinema brasileiro. A gente tem grandes nomes e grandes histórias que devem ser contadas – comentou.

Após a sessão naquele 10 de setembro, mesmo com as dificuldades motoras e para se expressar, o campeão aprovou a homenagem.

– Gostei bastante. A lembrança da minha família [emocionou]. Eu assisti direitinho. Vocês fizeram direirtinho. Foi emocionante ver de novo a luta – disse Éder.

Imagens: Divulgação

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