Meio Ambiente

Logística reversa: nova arma ecológica

Por: Renato Piovesan

Enquanto o Brasil recicla apenas 13% de seus resíduos urbanos, na Europa, 35% de todo o lixo gerado nas cidades ganha vida nova e ainda gera receita para empresas e consumidores. A distância para um cenário ideal ainda é expressiva, mas o Estado de São Paulo deu o pontapé inicial para uma nova revolução ecológica no País: a logística reversa. O conceito sustentável ganhou força no último mês após a Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SMA), a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), além de 18 associações e sindicatos de alimentos, bebidas e brinquedos terem assinado o termo de compromisso para logística reversa de embalagens em geral.

O modelo adotado é uma alternativa ao acordo setorial proposto pelo governo federal que determina que a embalagem do produto que pode ser reaproveitada deve voltar para a indústria para que o material seja reciclado. As embalagens, objeto do acordo setorial, podem ser compostas de papel e papelão, plástico, alumínio, aço, vidro, ou ainda pela combinação desses materiais, como as embalagens cartonadas longa vida.

Na Alemanha, por exemplo, que iniciou a implantação da logística reversa há quatro décadas, empresas que vendem água mineral são obrigadas a espalhar pontos de coleta dos vasilhames plásticos, e quem descarta a embalagem corretamente ainda ganha 50 centavos de euro por isso.

No Brasil, a simples assinatura do termo de compromisso ainda não regulamentou como, de fato, as empresas terão de se adequar, nem estipulou multas em caso de descumprimento, mas já significa um avanço, na visão do presidente do Consórcio Intermunicipal de Manejo de Resíduos Sólidos (Consimares), Benjamin Bill Vieira de Souza, que também é prefeito de Nova Odessa.

“Se não cuidarmos do nosso mundo, ele vai acabar. A logística reversa demonstra que o Brasil, começando por São Paulo, deu um primeiro passo para discutir o que há de mais sério pensando no meio ambiente, algo que os países desenvolvidos já discutem há muito tempo”, pontua.

Pensar na destinação final de um produto, para Bill Vieira, deverá ser regra em breve. “Aquele potinho de maionese, que vai para a nossa casa e depois para o lixo, muitas vezes é separado por cooperativas de reciclagem, mas em tantas outras não, parando nas matas ciliares, nos ribeirões e nos aterros sanitários, gerando riscos à saúde de nós mesmos. Agora as empresas não poderão só visar o lucro quando criarem embalagens retornáveis, mas também precisarão investir e gastar para incentivar um descarte correto dos resíduos que forem prejudiciais ao meio ambiente”, explica.

Levantamento do Consimares aponta que, por mês, mais de 22 mil toneladas de resíduos sólidos domiciliares são gerados em sua área de abrangência, nas cidades de Americana, Capivari, Elias Fausto, Hortolândia, Monte Mor, Nova Odessa, Santa Bárbara e Sumaré. A Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SMA) não possui dados semelhantes de Campinas.

Além do termo de compromisso para logística reversa de embalagens em geral, que começa a estabelecer suas diretrizes em São Paulo, há também um acordo setorial para implantação da logística reversa assinado em novembro de 2015, que tem como objetivo garantir a destinação final ambientalmente adequada das embalagens em todo o Brasil. Estão filiadas 23 entidades.

Por meio desse instrumento, fabricantes, importadores, comerciantes e distribuidores de embalagens e de produtos comercializados em embalagens se comprometem a trabalhar de forma conjunta para garantir a destinação final ambientalmente das embalagens que colocam no mercado.

Sustentabilidade exige envolvimento da sociedade

Na Região Metropolitana de Campinas (RMC) ainda são poucas as empresas que adotam a logística reversa. Em Jaguariúna, a cervejaria Ambev – dona das marcas Skol, Brahma, Antarctica e Guaraná – traçou uma meta audaciosa: até 2025, o objetivo é reciclar 100% de seu volume de pets e vidros, que hoje são, respectivamente, de 33% e 50%. O gerente de sustentabilidade da empresa, Filipe Barolo, alerta para a necessidade das próprias fábricas pensarem em dar uma destinação final às embalagens que lançam para o mercado.

“Desde quando adotamos as garrafas de vidro retornáveis, pudemos constatar que elas podem ir ao cliente e voltar à fábrica 23 vezes. Elas têm uma vida útil representativa. É claro que não podemos parar por aí, e por isso instalamos mais de 1 mil máquinas de coleta de vidro em postos de gasolina de todo o Brasil”, diz. Em 2017, a Ambev recolheu 115 milhões de vasilhames em todo o País. Para Barolo, é importante que o consumidor também tenha noção dos riscos de se descartar uma pet ou garrafa de vidro em locais inadequados.

“A reciclagem no Brasil é uma responsabilidade compartilhada. As iniciativas devem partir das empresas, mas é essencial um envolvimento com nossa cadeia de fornecedores e os consumidores”, frisa. O secretário de Serviços Públicos de Campinas, Ernesto Dimas Paulella, vê a logística reversa com bons olhos, mas também compactua com a ideia de que a própria população terá que ser fiscal das empresas que não estipularem medidas para reciclar suas embalagens cartonadas, de plástico, alumínio, aço, papel e papelão. “O que falta para a logística reversa realmente avançar é a consciência do cidadão, que deve exigir o cumprimento da lei. A logística reversa é extremamente importante para a preservação das matérias-primas, que num futuro não muito distante poderão estar em falta”, afirma o secretário.

Imagem: Divulgação – Meta da Ambev é reaproveitar 100% do volume de pets e vidro até 2025 contra os atuais 33% e 50%, respectivamente.

Mais em: Correio Popular

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